Reportagem e texto: MARCOS PAULO ROCHA e LISIANE RAMOS
Fotos: LISIANE RAMOS e JOSÉ LINS
Quando decidimos pelo título dessa matéria, não usamos ‘Lúcifer’ de forma negativa, longe do E-vista ter tal preconceito, associando o conteúdo da matéria a algo tão negativo na nossa cultura judaico-cristã. Na verdade foi apenas um jeito simples de dizer o quanto esses ‘parques‘ – que visitamos um a um – fervem em ebulição máxima na nossa cidade, embora escondam, quase que por completo, a problemática por trás do ser humano ali presente em cada orgasmo. Ao fim da nossa apuração não foi difícil constatar que o humano não é livre no que diz respeito a sua história e seu universo e que procura, ao realizar suas fantasias, um lapso constante de liberdade, algo inclusive, que se teve em mãos e que escorreu pela mesma, segundos depois. Tarefa difícil, a essa altura do campeonato, não lembrar de Freud e seus conceitos de pulsão, recalques, princípio de nirvana e o tão discutido “Mal-estar na civilização”. As matérias desta seção estão divididas em formatos diferentes a fim de entreter o leitor que procura algo diferente do conteúdo jornalístico padrão. Desafio este prioritário para o E-vista.
Travestis da Glória
Vila Mimosa
Dossiê Fetixe
O Podólatra
Michê
Cine Ìris
Dançando com o inimigo
Dotadas de humor e vivacidade, as travestis da Glória param o trânsito em plena sexta às 8 da noite, na Av. Beira-Mar.
Depois de algum tempo freqüentando bares da Lapa e da Glória à procura de algum contato para a matéria, encontramos Suzane no Bar da Tia Neném, num desvio da Rua Moraes e Vale. Uma morena belíssima de lábios carnudos. Ela foi o nosso passaporte para adentrar o mundo das travestis. O papo começou tímido quando a equipe do E-vista entrou no Motel Passeio para conversar com as meninas que ainda se trocavam. Como o ambiente era de descontração, não foi difícil relaxar e o que se segue é um incrível bate-papo sobre preconceito, união de classe, homens e sexo.
“Para ser travesti é necessário ter o espírito de mulher, não é qualquer homem que pode virar travesti não”, explica Suzane. Para ela, o homem bagunceiro nunca poderia ser travesti, já que o verdadeiro transexual feminino é impecável com a arrumação da casa. “Casa de travesti com bagunça não tem espírito de travesti”, brinca. E vai adiante: “Ser uma transexual é um estado de mente, está na cabeça e não na roupa”.
Suzane tem 35 anos e é o que se pode chamar de líder das travestis da Glória. Apesar de afirmar que o mundo gay não é tão unido como os negros são, sobretudo as transexuais, a impressão que fica é de forte união entre as meninas. Elas chegam todos os dias (exceto sábado e domingo) às 6 horas da tarde, ainda ‘desmontadas’, normalmente de jeans e camiseta ou até mesmo com seus alter-egos masculinos e se trocam no motel ao lado, uma espécie de QG. Lorrany, de 32 anos, tem 15 anos de praça e diz que não transa sem camisinha de jeito nenhum: “Quando um não quer dois não brigam”, brinca. Aspira a vida fora do Brasil e conta que está juntando dinheiro. Sobre o preconceito afirma que ele ainda existe sim, mas está aí para ser encarado de frente.
As histórias são no mínimo peculiares: Patrícia, por exemplo, perdeu a virgindade na 4ª série com um professor do colegial, aos 19 anos já queria se revelar como mulher para o mundo, Suzane perdeu a virgindade aos 17 anos com um menino de rua. Lorrany por sua vez, guarda uma marca no rosto até hoje. Perguntada sobre porque não denuncia as agressões, ela ri e afirma que não valeria a pena: “Pra quê? Pro policial rir da minha cara?”. A mesma Lorrany já se apaixonou por um cliente e ficou casada por longos 8 anos, mas acabou voltando pra rua. Conta também que foi viciada em drogas: “Tive problemas com cocaína, mas graças a Deus superei”.
A clientela é vasta e algumas vezes surreal. Dessa vez quem conta é a dona do bar ao lado do Motel, carinhosamente chamada de Tia Neném: “Certa vez veio um policial algemar uma menina, revistou-a e levou para o hotel. Quando voltaram, eu perguntei se ela tinha roubado algo e ela me disse que ele era cliente”. Perguntadas se os clientes são na maioria ativos ou passivos, Suzane revela: “Todos dão, poucos comem”. “Tem desde casal de sapatão até casal de senhores de 50 anos, há um casal de velhos que me paga só pra me ver comer a mulher dele, pois esse é o único jeito do coroa ficar excitado”. Suzane revelou que sua clientela, na grande maioria, é mesmo o típico coroa casado.
Mas se tem uma unanimidade entre todas elas é o fato de que os homens estão menos preconceituosos. “Eu adoro os Metrosexuais!”, brinca uma delas. “Os homens estão mais soltinhos hoje”, opina Patrícia. Quanto a drogas e Aids, assunto recorrente para quem vive da noite, elas admitem que garotos novos são mais irresponsáveis na hora da camisinha e algumas admitem já terem transado sem o uso do preservativo, mas garantem que são raras as ocasiões, já que todas prezam pelo uso da mesma, “A droga, por exemplo, piora a situação, pois você fica mais vulnerável a fazer sem camisinha”, conta Suzane que sequer tem o hábito de usar drogas.
Perguntadas se já se apaixonaram por algum cliente, Waleska deixa escapar que sim: “Mas fiquei triste porque ele nunca mais voltou”. Suzane já é mais rígida: “Nunca”. E numa boa noite, quantos clientes? “Em uma noite razoável são 3, em uma noite boa podem ser 6 ou mesmo 10”, diz Lorrany. “O dinheiro fácil que entra deslumbra a cabecinha de qualquer um”, explica Suzane enquanto aponta para Waleska que está na rua há apenas 1 ano e evita falar com a equipe do E-vista.
É claro que muito da dor de ser um profissional do sexo também está no fato de ter que transar com quem não se sente tesão, mas questionada sobre o abandono da profissão, Suzane diz na lata: “Enquanto eu estiver com o pau duro... Querido, eu sou a mulher do ano 2000: Peito, Pau e Quadril!”, brinca mais uma vez, minutos antes das nossas fotos tiradas no trânsito da Beira-Mar.
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Um conto para a Vila Mimosa
Embora fizesse anos que aquele ambiente já não me era mais estranho, toda vez que eu dobrava a esquina da Rua Ceará, o mesmo frio na barriga me perseguia e me consumia, até que eu achasse a mulher que iria para cama naquele dia. Isto se deve talvez a riqueza de histórias que há naquele lugar. Naquele ano eu dificilmente estava à toa na cidade, mas naquela terça-feira resolvi chegar a Vila às 6 da tarde, horário bom para pegar as meninas menos cansadas. Tão logo cheguei, resolvi tomar uma cerveja e me sentar no bar Clube 59 onde trabalha um amigo meu. Infelizmente ele ainda não tinha chegado.
Foi já na segunda cerveja que comecei a olhar as meninas com as piores das intenções, elas retribuíam o olhar, pois sabiam que eu era cliente. Na laje da construção em frente, uma menina de 20 e poucos anos, no auge de sua euforia, sambava toda sua graça para mim. Pela rua, três meninas, uma talvez com menos de dezoito anos passavam sorrindo e de peito de fora.
Resolvi procurar uma amiga minha, Suely, que já tem seus bem vividos 40 anos, mas ainda faz programas. Não foi fácil encontrar a peça, já que ela não estava no bar no qual costuma ficar e tive que percorrer quase todos os bares da Vila – que são muitos! – para achá-la. Suely continuava graciosa, ainda que o tempo tenha lhe tirado muito de sua mocidade. Conversamos por algum tempo sobre amenidades e sobre o que andávamos fazendo.Então ela resolveu me apresentar Tatiene, uma mulher linda com cara de menina, olhos verdes e bustos avantajados. Alguns amigos meus têm bastante preconceito com a Vila Mimosa, mas se souber ‘garimpar’ a mulherada é possível achar boa coisa por lá.
Tatiene me levou para um quarto exatamente em cima do bar onde estávamos. O quarto, bem... não se pode dizer muito bem que era um quarto, mas sim um cubículo retangular com uma cama. Era o suficiente para mim. O olhar de Tatiane me passava bastante tristeza se for comparada à alegria exuberante de suas curvas. Fui tomado de uma enorme compaixão por aquela menina e a deitei em meu colo por alguns segundos acariciando seus cabelos. Ela foi desabotoando o zíper da minha calça e então começamos a fazer sexo. Fez questão da camisinha. Já vi muita mulher me pedir carona na estrada, filha de gente importante muito mais impura que essa menina, no entanto não eram prostitutas. Tatiene conservava muito de bom dentro dela. Seu olhar era doce e sem perversões. Depois de fazer sexo com aquela menina algo me doía o coração.
Descemos do quarto e resolvi comer algo. Ela me acompanhou. Eu via nos olhos da menina que ela estava fascinada por mim. E sua carência de alguma forma me comovia demais. Perguntei se ela gostaria de fazer uma viagem comigo. Ela topou, mas disse que não tinha roupa. Então ela teve a idéia de comprar algumas peças na boutique da Vila Mimosa, já que tinha alguma grana na bolsa que carregava. E eu não sentia que estava levando uma prostituta para a estrada, mas sim uma menina com as mesmas necessidades de outra menina qualquer.
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Dossiê Fetixe
Brincadeira de gente grande.
A Festa Fetixe acontece de 15 em 15 dias na Casa de Swing Mistura Certa na Rua Vinte de Abril, em frente ao Campo de Santana. Às 8 da noite começam a chegar ‘Dominadores e Escravos’, em sua grande parte já habitues da festa. André Mello, produtor do evento, conta que a festa não é gls, mas sim alternativa. Embora sejam muitas as práticas de Fetixe, molação (cortes na pele) e suspensão não foram incluídas no cardápio da festa. Mas a Fetixe, que tem crescido a cada dia que passa, não deixa a desejar nem no anonimato: o escravo, muitas vezes, se apresenta ao público mascarado, livre para apanhar da dominadora frente a mais de cem pessoas. A festa acolhe novos integrantes a cada edição.
A Fetixe carioca não é inspirada nem representa festas e/ou similares paulistas. Segundo André Mello, as festas paulistas são maiores e mais segmentadas. Atingir um público grande, acima de 300 pessoas p.ex., não é a sua meta, em função da provável perda de controle sobre o comportamento desse mesmo público. A Fetixe é uma festa de divulgação dirigida, com um público ciente de suas normas. Os excessos não são permitidos, assim como determinadas práticas. Banhos de urina, esperma ou fezes, por exemplo, não são permitidos. A produção não segrega essas práticas, apenas não tem estrutura para recebê-las. Porém, André admite que uma projeção idealizada de sua festa seria um grande parque de diversões sexuais, com segurança e respeito. O conceito Fetixe é baseado no trinômio são, saudável e consensual. Perguntado sobre limites, o dominador Marcos responde: “É difícil, pois até onde vão os gostos e as fantasias? Muitas vezes temos a pronúncia de uma palavra sem sentido como cornflakes para demonstrar que alguém não está mais gostando de apanhar, por exemplo”.
A idéia de organizar a Fetixe surgiu junto com o fenômeno ‘Tiazinha’, atração do programa de Luciano Hulk. Segundo André, havia ali uma completa descaracterização da figura da dominatrix que, por exemplo, não usa a venda nos olhos, tão explorada na personagem televisiva. Havia alguma coisa errada ali. Concebeu assim, inocentemente, um projeto de acerto de contas, para difundir os verdadeiros usos e costumes dessa prática. Encontrou em Nefer, co-produtora da Fetixe, uma parceira ideal. Ela vinha de uma experiência convencional com terapia de casais, e buscava uma maneira de tornar os encontros terapêuticos mais divertidos. Ele desejava colocar em prática, conceitos místicos sobre a energia sexual, aplicado também a um ambiente de diversão. Desse encontro, auxiliado pela internet, surgiu a Fetixe.
André é músico e atuou profissionalmente como baixista durante anos, sendo assim, a música é uma parte importante da festa Fetixe. Optou pelo som gótico, industrial, black metal e electro, revisionista dos anos 80/90, mas não está associado a nenhuma grife da noite, como DDK, por exemplo. Esse recorte musical está relacionado unicamente ao fato de ser um som "alternativo", como "alternativo" é o seu público e sua festa. Como a festa acontece no Mistura Certa, uma casa de swing, muitos clientes migraram do swing para as práticas da Fetixe. Um garoto de mais ou menos 20 anos nos disse que descobriu o prazer na dor no consultório do dentista. Após a sessão de seu espancamento, apesar de suas costas estarem rachadas e em carne viva, ele sorria. Disse que teria suportado mais. “Tem muito a ver com a liberdade e domínio sobre seu próprio corpo”. Uma dominadora, por sua vez, disse que, em outra escala, o SM é comum entre os casais que tem o hábito de puxar o cabelo e dar tapinhas no bumbum durante a relação. Segundo ela, esse comportamento já caracteriza o dominador em potencial. Ao ser perguntada se todos que fazem isso são sádicos, ela explicou: “ Esse sadismo é latente, pode nunca se desenvolver, e é ignorado pelo próprio sádico, que pode não se auto-avaliar dessa forma”.
Existe grande diferença de público de acordo com o dia da semana em que a festa é apresentada. O final de semana atrai a garotada, que pode se divertir unicamente ouvindo rock gótico e bebendo cerveja ou, furtivamente, aceitar umas chicotadas aqui outras ali. Nos dias de semana temos um público mais adulto e centrado em exercitar seus fetiches.
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O Podólatra
As paredes espelhadas refletiam ao infinito o manequim da modelo prateada nua, amarrada com cordas sugerindo bondage. A imagem dele ia junto, pois escolheu exatamente a cadeira do american bar ao lado do manequim para iniciar sua visualização da boate. Mas não poderia haver maior contraste: o manequim de corpo volumoso se oferecia sensualmente ao espaço, ele tentava se esconder dentro das roupas sociais de homem comum, desconfortável até com seus próprios pensamentos. Mas o dever da caça o impulsionou até os sofás de vinil vermelho, onde ia abordando uma a uma, sem sucesso.
- Olá - foi se sentando ao meu lado, sem pedir permissão.
- Olá - respondi sorrindo.
- Você gosta disso? - apontou para o casal bem diante de nós, que se ocupava já há uns 20 minutos com podolatria, vulgo chupação de pé.
- Alguns namorados já fizeram comigo.
- E você gostou? perguntou nervosamente.
- É... achei gostoso - respondi sem muito entusiasmo.
- Posso fazer com você?
- Hein?!?
- Me deixa chupar o seu pezinho?
- Como assim?
Longo silêncio. Ele olhou pra frente, meio desolado, buscando inspiração para uma nova tática.
- Qual é o seu fetiche?
- Não, não é isso, eu sou jornalista, estou aqui a trabalho.
- Mas você não gosta de se divertir?
- Então tá: qual é o seu fetiche?
Ele me olhou desconfiado, percebendo que eu estava iniciando uma entrevista.
- Olha, não vou dar nome nem idade, tá? - disse, me sinalizando que iria entrar no meu jogo.
- Tudo bem, me fale apenas do que te estimula a vir pra cá.
- Eu gosto dos pezinhos, gosto de ver, chupar... pés delicados, pequeninos, como aquele ali, apontou para a apresentadora de tv que pisava o corpo de um homem mascarado, deitado no chão.
- Algo mais?
- Gosto de ser penetrado por mulher.
- Como funciona?
- Com um pênis de borracha.
- Não seria melhor um pênis de carne?
- Não porque não sou viado. É semelhante à sensação quando a mulher me penetra com o dedo.Os homens têm um ponto atrás da próstata, o esfíncter, que produz um prazer alucinante que só é alcançado com penetração. Mas só faço com mulher.
- Você consegue se realizar nestas festas, a parada rola aqui mesmo?
- Quando tenho sorte... Quanto você calça? - voltou-se pra mim bruscamente.
- 37... é legal?
- É normal... Me diz: você pinta as unhas do pé?
- Eu pinto sim... da mesma cor das unhas da mão, vermelho-sangue.
- Vai, me deixa pelo menos ver o seu pezinho... Estou doido para chupá-los...
Nesse momento a sala foi invadida por uma pequena equipe de tv, e várias práticas começaram a acontecer simultaneamente. Algumas mulheres tiravam sapatos e meias-calças levantando as pernas.
- Vai lá, é a sua hora - incentivei-o a abandonar a minha companhia - Boa sorte!
Por alguns minutos ainda conferi as tentativas dele. Logo, ele voltou a ser pra mim uma imagem que se lançava e se perdia ao infinito da repetição nos espelhos de uma sala sombria.
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Michê conta ao E-vista que nunca transou sem “Dar um 2”.
A., 27 anos, heterossexual e homossexualmente ativo faz o estilo ‘surfista’: loiro cacheado de olhos verdes e moreno de praia, é pai de quatro filhos e tem o ‘s’ puxado original da ginga carioca. Diz que só se apaixonou uma vez na vida e foi por uma mulher, a mãe de seus filhos. Nossa conversa, no apartamento de um amigo, fluiu em clima amistoso com direito a boas risadas. A. conta que sua primeira oportunidade de ganhar dinheiro através de uma transa aconteceu quando trabalhava ainda em um quiosque na ilha dos pescadores: “O cliente vivia me dando gorjeta e eu não entendi muito, então ele me convidou para transar com ele e eu o levei ao estacionamento”. Logo depois, descobriu o campo de Santana e, finalmente, a Cinelândia. A. fala sobre a situação escassa de clientes devido aos assaltos que acontecem regularmente no centro da cidade, “Há muitos bandidos disfarçados de michês, eles roubam mesmo. Eu até tenho contato com eles, mas não me misturo muito, só dou boa noite”.
A., que trabalha em um restaurante em Itacuruçá, conta que em mais de 5 anos, apesar de alguns abusos por parte da polícia, nunca sofreu qualquer tipo de violência e nunca foi pra cama com cliente sem camisinha. Difícil de acreditar? Pode ser, mas ele mesmo diz que nunca pensou em largar a ocupação de michê, apesar de reconhecer que é um emprego difícil: “Se alguém conhecido pega AIDS, acaba desaparecendo por vergonha, pois o povo fala mesmo, sabe como é, né?”. Quanto às drogas, A. deixa claro que nunca transou com um cliente sem estar dopado de maconha. Conta também que como ele, inúmeros clientes se drogam para fazer sexo. Em suas próprias palavras: “é uma forma de esquecer a verdade”.
Com a clientela na faixa etária de 40 anos pra cima, mesmo assim, A. garante que nem só de coroa vive o mercado dos michês, “o pessoal acha que não, mas vai muita bichinha de 20 anos também, filhinho de papai, só que é mais difícil”. O recorde, diz ele, foram 7 encontros em apenas uma noite. Apesar de não se misturar com os assaltantes, A. já passou muito a perna em clientes fissurados em cocaína, por exemplo. “Uma vez, um cliente me deu 500 reais porque queria pó do Tabajara. Eu voltei com apenas 150 bem ‘servido’ e ele achou demais. Quando acabou, ainda quis mais, daí pedi o cheque. Tenho um amigo que ganhou 1.500 assim”. Histórias como essa não faltam no currículo de quem vive no submundo: “Uma vez um cara quis que eu comesse a sua mulher, ele perguntou:”Tem pauzão?”, eu disse que não, mas que ninguém nunca tinha reclamado, daí ele:“Assim que é bom, pois minha mulher está grávida”.
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Strip no Cine Ìris
Três da tarde. O céu estava nublado. O centro da cidade era o mesmo e almas apressadas vagavam sem rumo e rumo a seus escritórios na secular Avenida Rio Branco. Eu tomava coragem para entrar no Cine Íris à luz do dia. Imaginei que deveria haver figurinhas carimbadas, habitues de cinema pornô que não tinham vergonha de estarem ali por três, quatro ou até mesmo cinco vezes na semana. Por que então tal pudor da minha parte? Sequei o suor da testa e entrei de uma vez. Afinal, era uma matéria jornalística.
Subi as escadas de antiga arquitetura do cinema. Ambiente escuro, olhares desconfiados, porém interessados. Eu ainda estava me acostumando com a escuridão. O flerte era intenso. O jogo da sedução óptica já estava fazendo a minha cabeça. No telão um filme erótico no qual duas mulheres se beijavam e em seguida usavam consolos com ponta dupla. O ambiente escuro era propício à “pegação” de todos os lados. De cima era visível, mesmo no escuro, os homens sentados juntos, um com o rosto enfiado na calça do outro.
Finalmente o show de strippers começou e pude sentir de rabo de olho um cara me olhando. A presença feminina na platéia é escassa, embora haja alguma. Onde tinha um telão agora estava uma menina de 25 anos dançando, ainda que sensualmente, um pagode brega. Não me dizia nada. Na segunda música, a coisa ficou melhor: o DJ tirou o pagode e pôs um hip-hop. A garota começou a tirar peça por peça, até ficar totalmente nua, rebolando de costas para a platéia que ia ao delírio. Eu mesmo já estava suando novamente. Era interessante, porque apesar de meninas nuas dançando no palco, muitos homens ali na verdade, queriam outros homens.
No intervalo, resolvi ir ao banheiro com a leve sensação que estava sendo seguido. A única cabine do banheiro estava fechada, com aparentemente dois rapazes dentro dela. Ao me virar, o homem do início do show estava lá na porta do banheiro, passando a mão por cima da calça como se estivesse me convidando a fazer sexo. Deveria ter seus 40 anos, alguém de classe média baixa, não era feio e deveria trabalhar ali pelo Centro mesmo. Meio sem jeito eu saí do banheiro e fui me sentar na cadeira do primeiro andar (o Cine Íris tem 2 andares e um terceiro que só é liberado para festas noturnas como a Loud ou a DDK, por exemplo).
No palco, a segunda stripper fazia seu último número ao som de Madonna. Rebolava nua de costas para depois ficar de quatro, arrancando aplausos da platéia. Era até difícil não se excitar, afinal o lugar exalava sexo. Mais 5 meninas dançaram exatamente do mesmo jeito que as anteriores. Lá fora, caia a noite no Centro da cidade. Apesar do dever de jornalista cumprido, eu pensava no que teria acontecido se tivesse aceitado o convite daquele homem.
No 'cinemão pornô' da Álvaro Alvim, na Cinelândia o esquema é o seguinte: o filme pornô passa no telão enquanto nas cadeiras acontece o jogo de sedução, muitas vezes também se aglomeram grupos de 5 ou mais no canto dos cinemas para uma maior interação. Tem de tudo: desde o boy das empresas perto dali até o executivo já casado, dono de uma grande firma. O rapaz de 20 e poucos anos de classe média que entrevistamos não quis se identificar.
Você é solteiro? .
Sou sim
Tem filhos?
Não.
Por que vem aqui? Quais as sensações despertadas em você?
Apenas pelo sexo. Gosto da posição de ser desejado.
Todas as vezes que você vem há transa com alguém?
Não
Você se protege todas as vezes que transa?
A grande maioria das vezes.
Você vê o hiv como um problema maior para gays do que para heteros?
Sim
Você é assumido? Perante a quem?
Sim. Perante a todos.
Quantas vezes vem aqui por mês?
5 ou 6 vezes.
Você consegue se imaginar vindo aqui daqui a 20, 15 anos?
Daqui a 15, sim, não sei daqui a 20... (risos)
O peep show funciona da seguinte maneira: por apenas 1 real você vê uma prévia do show das meninas, se gostar do que viu paga mais 5 por um momento a sós na cabine com uma delas,.Uma parede de vidro impede o contato físico, mas de resto tudo é possível, desde a masturbação até convite para um programa. Conversamos um pouco com R., de 25 anos, que apesar de casado, não considera o Peep Show como uma traição ao casamento.
Por que vem aqui? O que sente quando vem aqui?
Eu gosto, é a coisa do fetiche em si.
Você tem alguma preferência entre as dançarinas?
a Karen (uma morena, corpão, busto avantajado)
Não prefere as profissionais do sexo?
Não, pois sou casado.
Sua mulher aprova a sua vinda aqui?
Ela não sabe, pois sei que ela não aceitaria, mas é muito melhor que a traição em si. Até mesmo na coisa da culpa.
Quantas vezes você vem aqui por mês?
Duas, três vezes no máximo.
Até que ponto vai a fantasia de ficar só olhando?
Gosto de conversar com elas, falar sacanagem.
Você costuma transar com putas também?
Não, pois como já disse sou casado.
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Dançando com o inimigo
Já na Praça Tiradentes, topamos com Luciana de 21 anos. Seus olhos distantes e tristes quase confirmam a antiga e romantizada caracterização das prostitutas feita pelos artistas do século passado. No seu vestidinho rosa colado ao corpo que ela transformou em mercadoria, ela nos deu essa rápida entrevista enquanto posava para as nossas lentes.
O macho é mau?
- É - responde rápido, sem dúvidas no ar - A mulher é sensível demais para a brutalidade do homem.
O amor existe?
- Estou apaixonada e abandonada.
É comum você se apaixonar?
- Não.
Quem é ele? Por que se apaixonou?
- É um cliente. Me apaixonei porque ele me deu carinho.
Seria possível se apaixonar por um cafetão?
- Não, porque o relacionamento é de outro tipo. Não existe possibilidade de carinho.
Há quanto tempo você se prostitui?
- Há nove meses. Tive uma experiência em termas, mas não gostei.
Luciana então se afasta e se confunde com a noite numa esquina da rua Imperatriz Leopoldina onde Mano Brown cantava a Vida Loka num caça-níqueis de bar. Mas ela não gosta de rap.
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AGRADECIMENTOS:
Charles Ninja (que gentilmente nos cedeu o título da matéria), Sérgio Lima, Kananda Soares, Paolo Head, Dona Neném, Jorge, José Roberto Morais