DUAS RUAS MUITO ESPECIAIS
NO CORAÇÃO DO RIO

               
                           
   

Reportagem e texto:  LISIANE RAMOS                             Fotos:  LISIANE RAMOS e JOSÉ LINS

Nas grandes cidades do mundo, sem causas bem definidas, certas ruas ou quarteirões tornam-se ícones de movimentos culturais ou de toda uma era. Foi assim com o Quartier Latin e o Beco das Garrafas nos anos 50/60, com a Rua do Ouvidor na Belle Épòque carioca, ou ainda Corrientes em Buenos Aires, Picadilly Circus e Carnaby Street na Swingin’ London...

Longe do glamour e dos focos da mídia, a boemia carioca já escolheu seus endereços míticos para o novo século, e fomos encontrá-los em duas obscuras ruas do centro da cidade: Ceará e Joaquim Silva.

 

Entre o aqueduto e os motéis

Os vendedores de cerveja no isopor, a baiana do acarajé, os jovens artesãos de bijoux  vestidos como novos outsiders vêm chegando aos poucos com a noite. Logo ocupam as calçadas junto à fumaça do churrasquinho. É sexta-feira, estamos na Lapa - fértil e eterna geradora de boemias. A noite promete ser boa, está no ar uma surda movimentação de expectativas. E assim, como num passe de mágica e sob a bênção de Madame Satã, faz-se a noite sob a Lapa. Uma multidão, vinda de toda a cidade, misturando classes, raças, sexos  e idades, toma conta da Joaquim Silva. Não há uma atração especial que justifique a presença daquelas pessoas na rua – são notívagos em busca de álcool, diversão barata e uma difusa nostalgia de outros tempos do bairro. O vaivém é incessante e colorido – e pacífico, é sempre bom frisar.  Assim será a noite inteira, até  os primeiros raios de sol do sábado ou do domingo.

Apesar desse espetáculo de fim-de-semana ter dado a Joaquim Silva sua cara mais  conhecida, esta não é a única. Como o Rio antigo ou o Rio dos subúrbios, esta é uma rua com forte sentido de vizinhança, profundamente marcada pela presença de seus moradores, personagens únicos que dão à rua uma característica incomum. Chegamos perto da vida de alguns deles.

O chileno Jorge Selarón dedica-se diariamente, desde o ano de 1994, a trabalhar na reinvenção do que considera o grande sonho louco de sua vida: a escadaria de azulejos coloridos que leva ao Convento de Santa Teresa a partir da Joaquim Silva. Autor desta obra que rivaliza com os Arcos como cartão postal da Lapa, Selarón tem prazer em contar sua história. Foi um andarilho que circulou por mais de 50 países até fixar-se no Brasil em 1983. É pintor autodidata que inventou sua própria logomarca na misteriosa imagem de uma mulata grávida que pode ser vista em telas  nos vários  bares e espaços da cidade. Mas, principalmente Selarón é um artista popular que transformou seu amor pelo país num projeto de vida que valorizou uma região antes abandonada, cobrindo-a de ricos azulejos provenientes de todo o mundo, em 135 metros de arte e história. Nas manhãs de sol esse senhor de cabelos compridos e barbas brancas pode facilmente ser visto construindo seus jardins suspensos em banheiras azulejadas, retocando outros azulejos da escadaria - uma obra que promete manter viva enquanto vivo ele estiver.

Outra personalidade da Joaquim Silva é o baiano de Santo Antônio de Jesus, próximo  à Feira de Santana, conhecido como Jorge “Cravinho” pelas deliciosas batidas que vendia na janela de sua casa como alternativa ao desemprego. Foi dono de um dos bares mais freqüentados na noite da rua, por ostentar uma programação musical direcionada ao reggae e um clima descontraído. Dono de longos dreads, Jorge é capoeirista, artesão de pintura em madeira e um rastafari autêntico. O reggae é a base de seus projetos futuros, o livra de suas “agonias” pessoais, e com ele aposta na transformação das consciências em direção a uma sociedade melhor. Mas, sem patrocínio e apoio, Jorge sabe que o futuro – o seu e o nosso – chega com o trabalho cotidiano.

Bem próximo ao Bar do Reggae, do outro lado da rua, está  o Bar do Seu Cláudio.  Morto pelo câncer em 2000, seu Cláudio era um prolixo compositor de sambas. Bom anfitrião, atraiu para o seu bar uma nova geração de músicos que tocavam sambas e choros durante toda a noite, ou até que chovesse um balde d’água na calçada vindo dos apartamentos acima. O compositor e músico francês Mano Chao foi um dos batizados pelo balde quando esteve na cidade por ocasião do Free Jazz 2000. Mas, obstinado, no final da madrugada ainda podia ser visto no bar do seu Cláudio, tocando um violão cedido por outros fregueses. Assim é a Joaquim Silva.

 

Sob o signo do Rock’n Roll

No início era a escuridão. E então veio o ritmo e a luz se fez. Assim pode se resumir a história da rua Ceará. Antes uma sombria via de ligação entre o Centro e o subúrbio para passageiros das linhas de trem da Central, a rua Ceará começou a ganhar novos freqüentadores com a abertura do Garage Art Cult ainda na década de 80. Um antigo casarão pertencente ao Moto Clube do Brasil, serviu de abrigo inicialmente para concorridas sessões de vídeo rock que logo daria lugar a antológicos shows de grupos de todo o Brasil e exterior. Abreviado para Garage e após sucessivas trocas de administração, o espaço hoje é ocupado de Sexta a Domingo pelo Sobradão do Rock, com uma programação que privilegia o punk, o metal e bandas pouco conhecidas. Mas, independente da sorte dos novos projetos, o Garage, assim como o Circo Voador, sobrevive de seu próprio mito.

Pode se dizer que a rua ceará tem seu perfil delineado pela presença de dois públicos que se completam: os fãs de metal e blues, atraídos pela fama do Garage e pela música do bar Heavy Duty, e os balaios, esses antigos habitantes da rua.  O grupo de motoqueiros tem lá sua sede, onde faz reuniões semanais às sextas. O desfile de Harley-Davidson e jaquetas de couro marca um território que tem no bar Heavy Duty sua ambientação privilegiada. A intensa luz vermelha mancha a rua escura, pelas paredes ícones da cultura on the road evocam outro tempo e outro lugar. 

Não há no Rio de Janeiro rua semelhante à Ceará. Alheios  à movimentação a caminho da Vila Mimosa próxima - a zona de prostituição mais antiga da cidade –  grupos de homens e mulheres, jovens ou nem tanto, construíram seu próprio reduto inspirado em uma cultura bem distante da massificação e mesmo da nacionalidade. São quase heróicos.

 

   
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
 

   

   

   

 
               
               
               
                                       
     

   

   

       
                     
                     
                     
                                       

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